Te amo sem razão ou motivo aparente
Te amo onde a própria razão não entende
Não porque é fácil
Não porque você fez por merecer
Te amo sem saber.
Não que não sejas amável
Mas por ser tão amável para mim
Que chego até a te odiar.
Te odeio por me confundir
Por não me entender
Por não ter pudor em revelar o que não quero saber
E sobretudo por eu parecer tão boba por te amar
Apesar do que eu sei,
Mais do que consigo,
Mais do que eu pensei.
Te amo porque sou levada
Te odeio porque não pediu por nada
E talvez nem queira...
... e nem permita.
Te amo sem expectativa
Te amo sem eira, nem beira
Sem perspectiva.
Te amo pelo acaso do impossível
Na bagunça do impraticável
Com a certeza do indizível
Na medida do incalculável.
Te amo, ainda assim
Te amo, enfim
Te amo porque não há mais nada além de te amar.
Te amo, apesar
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Mais
De você não quero tudo
De você não espero nada
Mais já me é suficiente.
Se agora é o fim
Nunca esqueça o que eu disse no começo:
Seja muito,
Ou seja pouco
Não aceito menos
Não aceito menos
Tudo que eu quero não é nada demais,
Eu só quero mais.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Esparadrapo
Foi igual a arrancar um
esparadrapo que Melissa deixou Marcos.
- Estou indo embora.
Sem espaço para brigas, discussões de relação, mimimis e coisas do tipo. Ele também não era do tipo de mendigar atenção.
- Quer ir, vá.
Ele sabia que essa hora ia chegar, mas isso não o
impediu de de sentir a puxada do esparadrapo. Muito menos de sobrar cola na
pele. E essa cola não desgruda jamais, vai grudando com outras, às vezes solta
um pouco, mas sempre está meio pegajosa. Só sai com éter. E quem tem éter em casa?
Marcos não tem éter em casa, então deixou a cola assim
mesmo. Além disso, se você usar éter, corre o risco de ficar anestesiado e se esquecer dos momentos bons. Algumas pessoas não hesitariam em esquecer a parte ruim da história. Mas esta infelizmente está amarrada à boa, e esse era um risco que Marcos não gostava de correr, pois achava que a linha do tempo é uma reta só, e quanto mais buracos tiver nessa reta, menos sentido vão fazer as coisas no futuro.
Marcos ficou sentindo sua pele ardendo ainda por um tempo, meio avermelhada. É que a falta que ele sentiu o surpreendeu. Então ele foi à geladeira e se serviu com uma cerveja. Por alguns
absurdamente gelados momentos, essa falta foi preenchida. Mesmo sabendo que
essa falta nem cerveja, nem Melissa, nem qualquer outra coisa vai suprir. Somos
todos destinados à incompletude.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
À princípio era o verbo
Eu queria construir um mundo feito
apenas de palavras. Em cada lacuna, uma palavra. Em cada amor perdido, um poema.
Como sentir qualquer falta, se vocábulos existem aos montes? Se um não fosse
suficiente, tentaria outro e mais outro. E outro. As pessoas ligariam as
palavras, e brincariam de poesia. As crianças pulariam de trampolim numa
piscina de palavras e sairiam molhadas de cultura. Cada raio solar faria um
sentido. Cada vento sopraria uma ideia. Já pensou que louco? A sorte é que esse
mundo já existe.
Chega de saudade
Tom sabia que isso ia acontecer
mais cedo ou mais tarde. Ele sabia que depois de uma chegada vem sempre uma
partida, e que a vida é uma grande ilusão. Mas ele nunca se iludiu, não achou
que Dindi era o amor de sua vida, não podia contar com isso. É que Dindi tinha
uma doçura encantadora, um abraço que aquecia seu coração tão resfriado pelas
adversidades da vida.
No entanto aquela sensação de que
alguma coisa extraordinária poderia acontecer não o abandonava. Ela era seu
amor Bossa Nova: mansinho, feito uma brisa que diz “é impossível ser feliz
sozinho”. E quando a luz dos olhos dela encontrava com a luz dos olhos dele,
“Ah Dindi, se soubesses como machuca, não
amaria mais ninguém.”
Os dois não se viam sempre. Havia
uma distância que poderíamos medir em quilômetros, que não bastaria para
calcular quão longe estavam um do outro. Essa distância era mais bem medida em
dias. Dias que levariam para correr (literalmente) todo o percurso entre suas
casas. Provavelmente se encontrariam em alguma praia deserta no meio do
caminho. Passariam uma tarde em Itapoã, falando de amor.
E o resto, mar. Tudo que eu não
saberia nunca contar.
Eles só se encontravam de
passagem, na cidade, no cais, na eternidade. Mas o coração dele saltava toda
vez que, sem menos esperar, ela vinha, mesmo que por ínfimos e calorosos
minutinhos. Com seu violão, musiquinhas, palavrinhas bonitinhas e tantos e
tantos beijinhos, mais do que peixinhos a nadar no mar.
Mas ela sempre tinha aquele mar
no olhar. Como quem a qualquer momento se vai. Tom pensava “vai ver, tem que
ser”, e vivia o dia, sem medo de no final dele só sobrarem lembranças. Ele não
era ninguém de ir em conversa de esquecer a beleza de um amor que passou. O
importante era viver, e passar mais uma vez, só pra garantir.
“Ai, Dindi, se soubesses o bem
que eu te quero...”
Até que um dia Dindi disse que ia
passar por ali. Como sempre, Tom ficou tentando conter a aflição. Seriam abraços
e beijinhos e carinhos sem ter fim. Ele não, dormiu, não parou. Mas Dindi
passou direto.
Que insensatez, que coração mais
sem cuidado...
Não era uma grande surpresa, ele
sempre soube que ela partiria, mas os momentos felizes já tinham deixado raízes
no seu penar.
Com o tempo ele percebeu que ela
tinha ido sem volta. Então ele resolveu aceitar e seguir adiante. Sei lá, a
vida tem sempre razão.
“Mas, se ela voltar...
Se ela voltar, que coisa linda...
Que coisa louca.”
sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
Só mais um pedacinho
Se o amor fosse uma comida, o
amor seria uma paçoca. Você não tem pretensão nenhuma de comer paçoca. Você quer
cheesecake, mas só tem paçoca. Sei lá,
amendoim é gostoso e tudo, mas paçoca deve ser enjoativa. Mas você fica com
vontade de experimentar. No início você pensa "nossa,
que delícia!". Você não sabe se aquilo é doce ou é salgado, e essa dúvida
vai te deixando cada vez mais envolvido na degustação. E vai comendo aos
pouquinhos pra não enjoar. Mas percebe que não tem como evitar. Quando vê, está
por aqui de paçoca, até que você para, toma uma água, pensa um pouco, diz que
nunca mais vai comer paçoca, de tão enjoativo que é. Não entende como as
pessoas gostam disso. Mas daí a cinco minutos você pensa, “ah não, acho que vou
comer só mais um pedacinho”. E começa tudo de novo.
segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
A questão dos peixes
Marina sempre ficou imaginando o
grande amor da sua vida. “Haverá de me atrair”. Não se importava com beleza
óbvia, mas a beleza escondida nos defeitinhos bobos, um lábio meio torto, um
nariz proeminente, um bigode que mexe quando o cara fala, o jeito de falar, ou
qualquer característica aleatoriamente esquisita que fizesse daquela pessoa unicamente
atraente. Mas o mais importante de tudo: pernas. Pernas foram feitas para se
encaixar. As pessoas dizem que o primeiro beijo é um momento crucial para saber
se há química. Mas Marina não acha suficiente. Ela precisa dormir com a pessoa
e sentir que passaria o resto da vida confundindo suas pernas com as da pessoa,
com sua licença, Chico Buarque. Ela precisa saber que tem um lugar pra sua
cabeça no ombro (macio, diga-se de passagem, tem que ser) dessa pessoa,
enquanto as pernas se entrelaçam firmemente. Enfim, fora isso, toda aquela
perfumaria que no final das contas é sempre considerada: engraçado, carinhoso,
fiel, educado, blá blá blá.
Vamos facilitar a vida dela: no mundo
inteiro há 70 milhões de pessoas que poderiam ser facilmente identificadas como
sua alma gêmea, uma coisa que Marina não acredita. 70 milhões é muita gente. Mas
é muito mundo também. Considerando que há 5 continentes e sem considerar muito
suas densidades populacionais (por questão de preguiça mesmo), estima-se que em
seu continente provavelmente haveria 14 milhões de pessoas compatíveis, digamos
assim. 7 milhões na América do Sul. Cerca de 5 milhões no Brasil. Tudo bem, seu
país é grande, e tem mais ou menos umas 5 mil cidades. Bom, esse cálculo sim,
que seria loucura, devido a variação populacional enorme de uma pra outra, mas
só por curiosidade, e porque não queremos parar por aqui, chega-se a conclusão
que na cidade em que Marina mora deve haver mil pessoas que poderiam aquecer
seu coração.
Vamos considerar que metade
dessas pessoas são feias. Não feias e ponto final, mas não atraem e nem
despertam a atenção de Marina. Como já falei, Marina não se importa com a
beleza escancarada, mas com algo de sedutor por trás (ou na frente). Claro que
num mundo ideal, isso não importaria. Mas esse é um mundo ideal? Se fosse, não
existiriam baratas. Mas voltemos, 500 peixes por aí dando sopa no oceano. Bem,
não tão fácil assim, metade desses peixes estão comprometidos. Com pessoas que
já são os amores das suas respectivas vidas? Sabe-se lá. Talvez sim, talvez
não. Mas o que importa é que 250 pessoas estão aí, Marina. Se você mora numa
cidade de 5 milhões de pessoas, você tem uma chance de 1 para 20 mil de achar
uma de suas almas gêmeas (cálculo baseado no que eu quis mesmo). Na sua cidade.
Ainda bem que existem outras cidades.
Ainda bem que existem outras cidades.
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