sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Só mais um pedacinho

Se o amor fosse uma comida, o amor seria uma paçoca. Você não tem pretensão nenhuma de comer paçoca. Você quer cheesecake, mas só tem paçoca.  Sei lá, amendoim é gostoso e tudo, mas paçoca deve ser enjoativa. Mas você fica com vontade de experimentar. No início você pensa "nossa, que delícia!". Você não sabe se aquilo é doce ou é salgado, e essa dúvida vai te deixando cada vez mais envolvido na degustação. E vai comendo aos pouquinhos pra não enjoar. Mas percebe que não tem como evitar. Quando vê, está por aqui de paçoca, até que você para, toma uma água, pensa um pouco, diz que nunca mais vai comer paçoca, de tão enjoativo que é. Não entende como as pessoas gostam disso. Mas daí a cinco minutos você pensa, “ah não, acho que vou comer só mais um pedacinho”. E começa tudo de novo.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A questão dos peixes

Marina sempre ficou imaginando o grande amor da sua vida. “Haverá de me atrair”. Não se importava com beleza óbvia, mas a beleza escondida nos defeitinhos bobos, um lábio meio torto, um nariz proeminente, um bigode que mexe quando o cara fala, o jeito de falar, ou qualquer característica aleatoriamente esquisita que fizesse daquela pessoa unicamente atraente. Mas o mais importante de tudo: pernas. Pernas foram feitas para se encaixar. As pessoas dizem que o primeiro beijo é um momento crucial para saber se há química. Mas Marina não acha suficiente. Ela precisa dormir com a pessoa e sentir que passaria o resto da vida confundindo suas pernas com as da pessoa, com sua licença, Chico Buarque. Ela precisa saber que tem um lugar pra sua cabeça no ombro (macio, diga-se de passagem, tem que ser) dessa pessoa, enquanto as pernas se entrelaçam firmemente. Enfim, fora isso, toda aquela perfumaria que no final das contas é sempre considerada: engraçado, carinhoso, fiel, educado, blá blá blá.

Vamos facilitar a vida dela: no mundo inteiro há 70 milhões de pessoas que poderiam ser facilmente identificadas como sua alma gêmea, uma coisa que Marina não acredita. 70 milhões é muita gente. Mas é muito mundo também. Considerando que há 5 continentes e sem considerar muito suas densidades populacionais (por questão de preguiça mesmo), estima-se que em seu continente provavelmente haveria 14 milhões de pessoas compatíveis, digamos assim. 7 milhões na América do Sul. Cerca de 5 milhões no Brasil. Tudo bem, seu país é grande, e tem mais ou menos umas 5 mil cidades. Bom, esse cálculo sim, que seria loucura, devido a variação populacional enorme de uma pra outra, mas só por curiosidade, e porque não queremos parar por aqui, chega-se a conclusão que na cidade em que Marina mora deve haver mil pessoas que poderiam aquecer seu coração.

Vamos considerar que metade dessas pessoas são feias. Não feias e ponto final, mas não atraem e nem despertam a atenção de Marina. Como já falei, Marina não se importa com a beleza escancarada, mas com algo de sedutor por trás (ou na frente). Claro que num mundo ideal, isso não importaria. Mas esse é um mundo ideal? Se fosse, não existiriam baratas. Mas voltemos, 500 peixes por aí dando sopa no oceano. Bem, não tão fácil assim, metade desses peixes estão comprometidos. Com pessoas que já são os amores das suas respectivas vidas? Sabe-se lá. Talvez sim, talvez não. Mas o que importa é que 250 pessoas estão aí, Marina. Se você mora numa cidade de 5 milhões de pessoas, você tem uma chance de 1 para 20 mil de achar uma de suas almas gêmeas (cálculo baseado no que eu quis mesmo). Na sua cidade.

Ainda bem que existem outras cidades.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

De passagem

Passa trem,
Passa a tarde,
Passa o tempo,
Passa eu.

Passa avião,
Passa nuvem,
Passa a hora,
Passa eu.

Passa a página,
Passa o dia,
Passa a vida,
Passa eu.

Passa até estrela cadente,
só não passa a vontade
de passar novamente.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Amor

Será o amor o que me excede ou minha própria falta?
Às vezes sinto que o amor é um prolongamento de mim.
Um excesso, que tenta se emancipar, e para isso necessita apenas de um destino. Ele quer sair, mas vai para onde? Sem destino, ele fica apenas transbordando em agonia. Tudo que o amor quer é uma direção, um endereço acolhedor.
Mas um amor sem destino não é, por natureza, amor.
Um amor sem destino é uma falta. Sempre à espera de ser plena. É o próprio endereço, ao qual poderia ser destinado um outro excesso, que toma e envolve um outro em também agonia.
Mas o amor, por natureza, também não é sobra. O que sobra é o que não se precisa mais. O que não se precisa mais, escapa. Sai pela tangente. Rápido e indolor.
O amor é um excesso que faz falta.
A falta não é o amor, nem tampouco o excesso o é.
Mas só há amor onde há falta, e vontade de exceder.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Labirinto

Existe um labirinto de palavras entre mim e você.
Ao tentar desvendá-lo, piso em falso, tropeço nas palavras, me estrepo no chão.
Tento te alcançar mas as palavras não deixam. Elas me confundem.
Fico com raiva, paro, sofro, teimo, choro, sangro.
Tento voltar, mas não sei mais qual é o caminho de volta.
Acabo colocando mais palavras no caminho.
Já não sei mais que palavras estão entre nós, as minhas ou as suas.
E nessa bagunça, sigo vagando te procurando.
Tentando me encontrar.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Muito


Queria comer, muito
Queria comer muito
Queria muito comer
Queria muito comer muito
Queria muito comer muito. Muito...

domingo, 4 de agosto de 2013

Coisa linda

Você era a coisa mais linda que eu tinha
                     e mesmo assim deixei você ir

Você era a coisa mais linda,
                                         mas eu não tinha
                             quem me tinha era você.

Você foi a coisa mais linda...
Você foi, coisa mais linda
e eu fiquei olhando você ir.

Pois quem tem, se decide
Quem não tem se despede
Você...
Cadê você?

Hoje eu tenho tanta coisa...

Mas você era a coisa mais linda que eu tinha.